15 ANOS DE GRITO PROFÉTICO - Povo de Deus a caminho

setembro 15, 2009 by felipeassj  
Filed under Destaques, Reflexão

“A força da transformação está na organização popular”.

 

* Paulo Sérgio Vaillant

 

O “7 de Setembro”, dia oficial da Independência do Brasil, também conhecido como dia do “Grito do Ipiranga”, feito pelo então imperador Dom Pedro I, foi associado ao “Grito dos Excluídos” realizado em todo o país desde 1995 e que, nos últimos anos, ganhou repercussão em toda a América Latina.

 

Quem diz que a Campanha da Fraternidade não traz nada de concreto, pode se convencer, entre diversos exemplos, que o “Grito dos Excluídos” é algo muito importante que nasceu há 15 anos, como fruto de uma Campanha que levantou em todos os cantos e recantos do país, a justa bandeira de luta do povo excluído.

 

Os excluídos dispõem, realmente, de poucos mecanismos e meios de organização. É verdade! Mas eles sempre gritaram e seus gritos têm algo de muito profundo e original. Por isso eles seguem gritando ainda hoje. Quando este grito ecoou no coração do povo organizado nas Igrejas Cristãs, ele passou a ser um grito profético. É por isso que há 15 anos vem contagiando milhares pessoas e centenas de Movimentos e Instituições afinadas com a defesa e a promoção de todos os direitos para todos, que inclui hoje, os direitos cósmicos.

 

Se aquele “grito”, há quase dois séculos atrás, marcou Brasil e sua relação de independência política e econômica com a colônia portuguesa, ele hoje ainda faz sentido existir. Pois “independência” é um processo, que exige muita vigilância criativa, principalmente em tempos de globalização interplanetária. Além daquela dimensão maior, há muitos brasileiros e brasileiras que vivem em condições sub-humanas formando uma grande massa de excluídos e excluídas e até de escravos ilegalmente dependentes.

 

Todo excluído é por condição social, dependente e se ele não é ouvido, jamais consegue superar a estrutura cultural excludente. O que devemos buscar é a interdependência, a comunhão, a sinergia e a inclusão. Mas isso supõe, antes de tudo, uma relação entre iguais, onde todos e cada um e cada uma tenha respeitado seus direitos, inclusive o de ter direitos e oportunidades iguais, por exemplo. Para isso, o trabalho com dignidade é fator essencial neste processo, pois é ele que dignifica o ser humano.  Diz Jesus Cristo: “Meu Pai trabalha e eu também trabalho” e “todo trabalhador é digno de seu salário”, nos exorta São Paulo.

 

Oxalá, se todo cidadão e cidadã, após concluir sua formação física e intelectual, tivessem direitos e oportunidades iguais para se realizarem como ser criativo a imagem e semelhança de seu Criador!

 

Aqui em Vitória-ES o Grito dos Excluídos levou às ruas, nesta manhã, milhares de capixabas excluídos/as e/ou solidárias com estes. Após a concentração, caminhamos, cantamos e gritamos unidos pelas ruas, ainda que meio desertas, paramos nas escadarias do Tribunal de Contas, do Tribunal de Justiça  e da Assembléia Legislativa, com vassouras em punho e um caminhão pipa com água suficientes para lavar os degraus, que todos os dias conduzem homens e mulheres públicos ao trabalho, que deveria ser pautado pela ética, a justiça, a honestidade, a competência e a transparência, pois afinal, é um trabalho pago com o dinheiro público e, neste sentido, por cada um e cada uma de nós.

 

O que mais se ouviu foram gritos de indignação e até de desespero, diante de tanta injustiça, corrupção, impunidade e mentira em nosso Estado, que fazem crescer, cada dia mais, a insegurança e a violência que ceifa tantas vidas de crianças, adolescentes e jovens, que deveriam estar sendo adequadamente formadas para continuar cuidando da vida com dignidade, justiça e paz.

Assim como o “grito do Ipiranga” foi seguido da suposta expressão do imperador: “Se é para o bem da nação, digam ao povo que fico”, podemos dizer que o “Grito dos Excluídos”, também veio para “ficar” e ele hoje faz parte integrante da Pastoral da CNBB, outras Igrejas cristãs e da Agenda dos Movimentos Sociais e instituições afinadas com ele.

Aqui em Vitória, três coisas podem ser consideradas inovadoras neste 15º aniversário do Grito dos Excluídos. Primeira: ter sido desconectado da Festa Cívica e Militar oficial que aconteceu na parte central da cidade. O Grito optou pela avenida beira-mar aos redores das “Casas de Leis e de Justiça”; Segunda: preparar os gritos à partir de três perspectivas: Política Econômica, Políticas Públicas  e Políticas Sociais e de Economia Solidária, fazendo críticas contundentes e apresentando alternativas viáveis que dão razão de nossa esperança; Terceira: ter sido mais simbólica. Daí a opção por um momento de mística cristã inicial, uma caminhada pelas ruas e avenidas e as paradas com denúncias graves e a lavagem das escadarias, dinamizados pelo chamado “Comando de caça aos corruptos”  que transportou ao longo de todo o percurso um enorme e assustador dragão e uma cadeia superlotada de “ladrões públicos = corruptos” sendo detetizada e vigiada por guardas 24 horas.

Vale destacar a participação direta das Pastorais da Juventude e da Cáritas Arquidiocesana, a cobertura integral da grande imprensa e a presença de autoridades das Igrejas Cristãs, Políticas e da OAB. Os Sindicatos ligados à CUT e o Movimento pela Moradia também tiveram participação relevantes.  

Este “Grito dos 15 anos” confirmou o que consideramos ser a Vontade de Deus: “a vida em primeiro lugar!” e deixou-nos um bom sentimento e o compromisso que deve ser cultivado e promovido pelos Movimentos e Pastorais Sociais que estão ressurgindo com bastante vitalidade. Eles são como “brasas sob cinzas”, diria L. Boff, que precisam apenas de um sopro vital para voltar a “incendiar” as massas excluídas.

 Há um sentimento bastante generalizado de satisfação e realização de sonhos e utopias políticas, por um lado e, por outro, o fato de ter havido muita cooptação e engajamento nos governos nacional, estadual e municipal, após a eleição de Lula a Presidência da República, onde muitos companheiros e companheiras ocuparam importantes cargos eletivos ou de confiança, causando bastante acomodação e desarticulação. As maiores exceções são o MST e os Movimentos Indígenas que estão bem articulados de norte a sul deste país.

Muitos militantes sociais e eclesiais embarcaram na frágil e até mágica esperança de que nossos companheiros/as eleitos ou contratados pelos governos, seriam capazes sozinhos de realizar todas as mudanças estruturais que nós queríamos e seguimos ainda hoje desejando. O “grito” é um sinal de que o povo está se movimentando e cobrando criticamente e participando um pouco mais. A mudança verdadeira, somente o povo pode fazê-la. *Dom João Batista da Mota Albuquerque, disse durante as graves enchentes aqui no Espírito Santo na década de 70 que “O povo salva o povo”, referindo-se ao “milagre” da solidariedade fraternal vivida intensamente pelo povo capixaba.

Esta tomada de consciência nos parece um bom sinal. Algo parecido está se passando também com as Comunidades Eclesiais de Base, como constatado recentemente em Porto Velho-RO, no XII Intereclesial das CEB’s. Precisamos manter-nos vigilantes, transformando nossa justa indignação em ações concretas e criativas, pensando globalmente e agindo no local onde vivemos e sonhamos com outros mundos possíveis, sem exclusão.

*1- Presbítero na Arquidiocese de Vitória – psvaillant.sj@gmail.com

*2 - Dia 02 de setembro passado Dom João completaria 100 anos de vida entre nós.

 

Share/Save/Bookmark

Enter Google AdSense Code Here

Solte a voz!

Diga-nos o que está pensando...
ah, sim, se você quiser criar uma imagem para mostrar junto de seu comentário, visite o site gravatar!

Você tem que fazer login para publicar um comentário.