Audácia e coragem no Setor Social

junho 17, 2009 by felipeassj  
Filed under Conjuntura

Rio de Janeiro, 1º de agosto de 2008.
Por, Conferência de Provinciais da América Latina - CPAL.

“Foi uma das reuniões mais ricas e produtivas dos últimos anos” foi a conclusão de um dos coordenadores sociais, avaliando a experiência tida em Manaus (Amazônia brasileira) na primeira semana de julho. De fato, foram três reuniões em cadeia: os coordenadores sociais, o programa de formação política e cidadã, os diretores de centros sociais. A participação foi das melhores: todos os coordenadores sociais e os diretores de 22 centros, em uma tendência que vai em aumento e que expressa o interesse gerado por estes encontros.

Se queremos tratar dos frutos, poderíamos sintetizá-los nos seguintes, um por reunião: a definição das linhas de ação e suas estratégias para o setor social pós-CG 35, o acordo para a formação de uma rede de centros sociais e a consolidação do programa de formação política e cidadã. Vejamos um por um.

A reunião dos coordenadores sociais e os coordenadores dos sub-setores -responsáveis pela animação do setor social em cada província e em cada um dos sub-setores (SJR, SJM, Indígenas)- dedicou uma manhã de retiro à CG 35 e uma reflexão em painel sobre esta experiência. Contando com seus resultados e com alguns outros documentos produzidos por e para o setor nos anos recentes, os coordenadores apontaram as seguintes linhas de ação, que formulam opções e que deverão dar lugar a programas e projetos nos próximos anos. São as seguintes:

- Migração, refúgio e deslocamento forçado

- Governança, sociedade civil e cidadania

- Interculturalidade, pluralismo, afrodescendentes e povos indígenas

- Culturas suburbanas

- Paz e reconciliação,

- Justiça sócio-ambiental e desenvolvimento regional sustentável

O enfoque está marcado pela perspectiva dos pobres, a opção fé-justiça e a desejada integração dos países e povos da América Latina e o Caribe.

Na formulação destas linhas de ação confluíram, em Manaus, vários afluentes: a análise da realidade da região, a experiência prévia em algumas destas linhas (o caso do SJR e o SJM para a primeira ou o programa de formação política para a segunda), o discurso breve do P. Kolvenbach aos Provinciais no Santiago (2006) e os postulados elaborados pelas províncias preparando a CG 35. Do “Princípio e Horizonte” (2002) recolheu-se a necessidade de discernir e veicular um pensamento alternativo já existente em muitas experiências bem-sucedidas do setor, enfatizando portanto a investigação e produção social. Da avaliação sobre este texto que em 2005 os Provinciais fizeram, retomou-se a necessidade de promover uma maior articulação entre os centros sociais e as universidades.

O insumo mais importante nos veio do enfoque e das orientações da última CG 35, particularmente o decreto 3 (“Desafios para nossa missão hoje. Enviados às fronteiras”) e as comissões sobre governo ordinário, que a mesma CG 35 constituiu para trabalhar os postulados que chegaram de toda parte da Companhia. Particularmente: globalização e ecologia, diálogo e fundamentalismo religioso, povos indígenas, refugiados e migrantes e apostolado intelectual. É preciso lembrar que várias destas comissões convidam a que se formem grupos de trabalho sobre estes temas a nível de Conferências de Provinciais. A reunião de Manaus foi um passo importante nesse sentido.

Um ponto chave foi o consenso alcançado para trabalhar em nossos centros a “mística da ação social” -tema de fundo do próximo encontro a realizar-se na Cochabamba em 2009- e do seguimento de Cristo pobre. O encontro manifestou uma vez mais o interesse por contar neste ministério com jovens jesuítas que contribuam com idéias novas e renovadoras nos centros, espaços caracterizados por sua localização nas “fraturas sociais”, segundo a expressão utilizada precisamente por um deles.

Os diretores de centros sociais começaram a chegar já durante a reunião dos coordenadores, mas iniciaram seu trabalho um dia depois, logo depois de participar de uma interessante apresentação sobre o trabalho apostólico da Companhia na Amazônia brasileira. O intercâmbio ratificou a vontade dos diretores de vincular suas ações constituindo uma rede cujo objetivo geral é “favorecer o diálogo, intercâmbio e construção comum entre os centros sociais, no marco das linhas de ação definidas pela CPAL, para obter uma maior incidência em políticas públicas a favor dos grupos, organizações e movimentos sociais da América Latina e o Caribe”.

Expuseram também alguns objetivos específicos que têm a ver basicamente com as estratégias gerais expostas na reunião de coordenadores: fortalecer a comunicação e o intercâmbio, fazer análise de contexto e da conjuntura com um olhar latino-americano, desenvolver processos de pesquisa conjuntamente com as universidades, executar programas de formação e fortalecer os processos de incidência. Para que estas colocações não fiquem em bons desejos se delegaram tarefas a alguns centros, que deverão dar conta delas em próximas reuniões.

Assim, por exemplo, o Centro Gumilla da Venezuela se encarregará de propiciar mecanismos permanentes de análise do contexto e da conjuntura da região latino-americana, em benefício de todas nossas plataformas apostólicas. Trata-se de um subsídio que nos deve oferecer informação da região em seus avanços e dificuldades de integração no contexto dos diversos blocos mundiais. Outros centros assumiram também outras responsabilidades e a coordenação da CPAL se encarregará da intercomunicação através, sobre tudo, do minisite do setor social, inserido na website da CPAL.

Neste mesmo sentido de avançar em propostas concretas, localiza-se também o programa de formação política e cidadã, iniciado faz três anos pelo setor social da CPAL. O coordenador anterior, P. Jorge Julio Mejía (COL), fez um balanço deste primeiro período considerado por todos como positivo: conta-se agora com uma proposta de Marco Orientador do Programa que ilumina os cursos já existentes, há importantes avanços por países, em vários deles o programa se desenvolve em coordenação com as universidades e leva a um reconhecimento acadêmico, em outros se estão desenvolvendo programas diferenciados segundo o público-alvo (colaboradores de nossas obras, setores urbano periféricos, indígenas).

É preciso destacar que, na maioria de países, o programa ajudou à articulação entre os diversos centros sociais que o implementaram e entre estas e outras instituições (universidades, Fé e Alegria) estabelecendo sinergias com maior capacidade de impacto. O passo seguinte deve ser, então, o impulso do programa naqueles países onde ainda é fraco, um maior intercâmbio de experiências significativas, sua sistematização e a publicação do marco orientador e as exposições do Seminário de Caracas 2005, depois de três anos de verificação. Estas tarefas foram assumidas pelo novo coordenador do setor, o P. Alfredo Ferro (COL). Revezamento entre patrícios.

Enfim, num tempo breve muito fruto. O setor deve dar-se por satisfeito e todos nos alegramos por este avanço significativo. Em muitos aspectos esta reunião foi programática para o setor social e seu futuro, um futuro que este encontro conseguiu antecipar. Faz dois anos, no Santiago do Chile, o P. Kolvenbach, então Geral, dizia aos Provinciais a propósito do setor social e das orientações que deu nesta ocasião: “as sugestões que indico estão enraizadas em passos que já se estão dando e em recomendações que saem da reflexão do setor social. O futuro já está entre nós, se tivermos a audácia e a coragem de deixar que o Espírito nos guie”. O P. Kolvenbach, impulsionador constante do apostolado social, pode estar contente: sua palavra caiu em terra fértil.

Para todos, jesuítas, familiares, amigos e colaboradores, feliz dia de Santo Inácio!

Ernesto Cavassa, SJ

Share/Save/Bookmark

Enter Google AdSense Code Here

Solte a voz!

Diga-nos o que está pensando...
ah, sim, se você quiser criar uma imagem para mostrar junto de seu comentário, visite o site gravatar!

Você tem que fazer login para publicar um comentário.